Bem-vindos ao Blog "Anatomia, Fisiologia e Literatura". Aqui, vocês encontrarão contos que explicam curiosidades dessas subáreas das Ciências Biológicas de maneira lúdica e divertida. Espero que gostem.
21 de janeiro de 2026
As aulas ainda não tinham começado. Ainda faltavam semanas para o ano letivo ser oficialmente iniciado. Alguns estudantes aproveitavam o litoral pernambucano para ir à praia com a família, outros preferiam visitar praças, fazer compras no shopping ou assistir aos filmes que estavam em cartaz. Aurora não fazia parte de nenhum desses grupos. Todo dia, ela escolhia um livro sobre alguma coisa que ela não conhecia ou conhecia pouco para ler. Pontualmente, às 07:00 horas, ela sentava no balanço de dois lugares que ficava no jardim de casa e passava horas descobrindo universos inteiramente novos ou pouquíssimo conhecidos. Aurora gostava de aprender e considerava o conhecimento uma ferramenta poderosa. Por isso, não existia um tema específico que chamasse sua atenção. Ela tentava ler tudo o que a ela fosse apresentado intencionalmente ou não, e costumava anotar as informações mais interessantes das leituras que fazia em um caderno. Em algumas ocasiões, um livro só não era suficiente para satisfazer sua curiosidade, o que a levava a procurar outras fontes bibliográficas – artigos científicos eram bons amigos em momentos assim. Para algumas temáticas, um dia não era suficiente para preencher as lacunas de seu conhecimento e, por isso, pediam mais alguns dias de imersão. Essas temáticas, Aurora considerava mais complexas ou extremamente fascinantes.
- Bom dia! – Disse Afonso, o vizinho de Aurora. Ela olhou para o relógio que usava no pulso esquerdo e depois voltou a olhar para a página do livro sem, no entanto, voltar a ler. Afonso e Aurora se conheciam desde janeiro do ano anterior, quando a família dele se mudou para a casa ao lado. Desde então, e aos pouquinhos, os dois foram se aproximando e, nos últimos tempos (nas últimas duas semanas, para ser mais precisa), Afonso participava das leituras de Aurora. Talvez, participar não seja a palavra correta. Ele sentava ao lado dela e esperava o momento certo para interrompê-la.
- Bom dia! – Disse Aurora, sem tirar os olhos do livro. Nesse momento, ela apenas observava a página que tinha diante de si. Depois de responder a saudação de Afonso, Aurora decidiu continuar a leitura. Como era esperado, Afonso sentou ao seu lado e permaneceu um tempo olhando para frente enquanto ela lia.
- Qual é o livro da vez? – Perguntou Afonso, curioso, voltando o olhar para as páginas do livro, na tentativa de enxergar o que elas diziam. Ele não conseguiu. Então, encarou Aurora com olhos cheios de expectativa. Ela voltou a olhar para o relógio. Depois de verificar a hora e calcular o tempo, Aurora olhou nos olhos castanhos de Afonso. Ele sorriu. Os olhos dela, escuros como o tom mais bonito do céu à noite, carregavam um brilho travesso.
- Temos um novo recorde! – Anunciou Aurora, fingindo se incomodar com a presença dele. O sorriso, no entanto, entregava o quanto ela gostava da companhia do Vizinho Bisbilhoteiro todas as vezes. – Você está de parabéns! – Comentou Aurora, sem responder a pergunta de Afonso. Ele riu.
- Sério? Passei mais de três minutos e meio em silêncio? – Perguntou Afonso. O cabelo loiro estava perfeitamente bagunçado, como de costume, mas o vento daquela manhã de verão também contribuía para com aquele caos dourado. Os cachos castanhos de Aurora também não ficaram imunes ao efeito do vento, fazendo-a prender a parte de cima dos fios. Assim, ficaria mais fácil ler sem se preocupar com as mechas de cabelo cobrindo os olhos.
- Muito mais. Dessa vez, foram cinco minutos inteirinhos.
- Não foi tão mais assim, então.
- Um minuto e meio é bastante coisa.
- Não estou tão convencido disso. – Aurora riu. Ela voltou a atenção novamente para as páginas do livro, enquanto ele permaneceu com o olhar no rosto dela. – Então, o que você está lendo? – O livro que Aurora carregava era mediano. Tinha pelo menos 250 páginas. – Ontem, você leu sobre o número de Euler; antes de ontem, sobre arqueologia… Hoje é o quê? Alguma coisa da área de saúde?
- BINGO! Estou lendo sobre a resposta ao estresse em vertebrados! – Respondeu Aurora, visivelmente empolgada. O tom de voz e o semblante entregavam que o tema do dia a tinha deixado mais curiosa do que todos os temas das últimas duas semanas.
- E o que de tão interessante você descobriu para estar com essa expressão esquisita no rosto? - Perguntou Afonso, curioso. Aurora voltou a olhá-lo nos olhos. Passou um tempo em silêncio antes de revelar:
- Você sabia que a base fisiológica da resposta ao estresse em vertebrados é considerada um conjunto altamente conservado de respostas que evoluíram para ajudar os animais a sobreviver a estímulos ambientais nocivos? – Afonso nem confirmou nem negou com a cabeça, esperou apenas Aurora voltar a falar. Ele sabia que ela ainda não tinha terminado. – Lembre-se de que estamos em ano de vestibular. Você deveria saber disso para se sair bem no ENEM. – Alertou Aurora, em tom de brincadeira, curiosa para ouvir a resposta dele. Ela sabia o que esperar.
- Estamos de férias, eu não deveria sequer saber da existência de livros, ou melhor, eu deveria esquecer a existência deles. – Aurora riu. Apesar do esforço hercúleo de Afonso em aparentar não se importar com nada relacionado aos estudos, ela sabia que ele gostava de conhecer as coisas. Isso ficou ainda mais claro nas últimas duas semanas. Toda vez que ela explicava o conteúdo dos livros que lia, ele deixava escapar, sem perceber, informações sobre o que quer que ela estivesse lendo. Talvez, ela estivesse errada, mas, baseada nas suas observações dos últimos catorze dias, apostaria que ele prestaria vestibular para alguma área de saúde. Talvez Veterinária ou Ciências Biológicas. Ela deixou de olhar Afonso nos olhos e voltou a sua atenção para a página do livro. Ela recomeçou a leitura. Aurora sabia, no entanto, que Afonso não resistiria. Sua curiosidade não o deixaria em paz. – O que tem de tão interessante na resposta ao estresse em vertebrados? – Aurora deixou o livro de lado e olhou para frente. Afonso fez o mesmo. Mais uma vez, Aurora pensou um pouco antes de responder.
- Tudo! Peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos são tão diferentes, mas todos os vertebrados examinados até o momento apresentam as duas principais vias de resposta ao estresse.
- Deixe-me adivinhar… – Aquelas palavras fizeram Aurora olhar para Afonso, que ainda mantinha o olhar fixo no que havia em frente a eles, uma casa azul celeste antiga e muito bonita. Ao sentir o olhar de Aurora, Afonso se virou para encará-la. Ela sustentou o seu olhar enquanto ele dizia: – A liberação de noradrenalina e adrenalina, que está associada ao sistema nervoso autônomo e compreende a resposta imediata de luta ou fuga, e a liberação mais lenta de corticosteroides do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal, o eixo HPA, que ajuda a orquestrar respostas de longo prazo. – Ouvi-lo falar sobre algo que a tinha conquistado fez o coração de Aurora acelerar, mas ela não pareceu registrar aquela alteração de maneira consciente.
- Você não está tão mal assim para quem quer esquecer a existência dos livros. – Provocou Aurora, tentando entendê-lo. – E só para acrescentar: HPA ou HPI.
- HPI? – Os dois ainda não tinham desviado o olhar um do outro.
- É. Nos peixes, a produção de corticosteroides ocorre nas células interrenais. Essas células não formam uma glândula compacta comparável ao córtex adrenal, mas se organizam em camadas, cordões e feixes ao redor das paredes das veias cardinais posteriores e de seus ramos, que atravessam os rins cefálicos. O sistema neuroendócrino homólogo nos peixes é, portanto, denominado eixo hipotálamo-pituitária-interrenal.
- E como seria uma organização em camadas, em cordões e feixes ao redor das paredes das veias cardinais posteriores e de seus ramos que atravessam os rins cefálicos? – Aurora desviou o olhar para procurar pela página do livro que trazia uma ilustração dessa organização e mostrou a Afonso. – Interessante… – Comentou ele, observando aquela ilustração durante alguns segundos. Depois, Afonso voltou a olhar para Aurora, que retribuiu o gesto. – Você disse que os peixes têm o eixo HPI, certo? – Aurora assentiu. – Então, apenas os peixes são diferentes nesse aspecto?
- Mais ou menos. Existe um aspecto prático relacionado aos anfíbios que gera certa confusão. Como é difícil isolar as células adrenocorticais das células renais desses animais, o termo “glândula interrenal” é amplamente utilizado para se referir a essa glândula.
- Então, o eixo HPA nos anfíbios seria um meio-termo entre o eixo HPI e o eixo HPA dos demais vertebrados?
- Acho que pode ser interpretado dessa maneira sim!
- Interessante. – Afonso decidiu que procuraria mais a respeito do eixo HPI e do eixo HPA depois que voltasse para casa. Essa diferença sutil tinha chamado sua atenção. – Quando você diz que a resposta ao estresse é conservada entre os vertebrados, o que exatamente significa? – Afonso resgatou o que Aurora tinha dito logo no início da conversa.
- Significa que o mecanismo fisiológico por trás da resposta ao estresse é consistente entre eles, apesar de peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos serem consideravelmente diferentes.
- Desenvolva! – Pediu Afonso. Aurora riu. Os dois estudavam no mesmo colégio e faziam parte da mesma turma. Um dos professores, o de biologia, sempre pedia, em tom ensaiado, para os estudantes desenvolverem o raciocínio por trás das respostas dadas às perguntas que ele fazia.
- A resposta de luta ou fuga, por exemplo, sempre associada ao sistema nervoso simpático, precisa de apenas dois neurônios em série para transmitir a mensagem do sistema nervoso central ao órgão efetor: o neurônio pré-ganglionar e o neurônio pós-ganglionar.
- E esses neurônios liberam o mesmo neurotransmissor? – Perguntou Afonso, incentivando Aurora a compartilhar mais informações com ele. O tom animado em sua voz entregava, mais uma vez, o quanto ele gostava da possibilidade de conhecer coisas novas ou de descobrir detalhes que até então não faziam parte do seu repertório. Portanto, Aurora sabia que o motivo por trás de Afonso querer continuar a conversa, mesmo conhecendo parte considerável daquilo que ela dizia, era a certeza de que havia pormenores que ele descobriria através dela. Ela só não percebia que existia algo a mais por trás daquelas longas conversas. Tanto por parte dele quanto por parte dela.
- É um pouco mais complicado do que isso. – Respondeu Aurora, voltando o olhar para frente. Afonso fez o mesmo.
- Quão complicado?
- Não muito.
- Explique-me, então, Senhorita. Por favor!
- Explicarei! Com uma condição… – Afonso encarou Aurora com expectativa.
- Qual? – Aurora sorriu. Ela olhou para ele e disse:
- Você tem que prometer que não irá me interromper se não for extremamente necessário!
- Não sei se sou capaz de prometer isso.
- Então, prometa que irá ao menos tentar não me interromper. – Pediu Aurora. Em resposta, Afonso fez um X com os dedos, virando-os de um lado para outro, e selando a promessa com dois beijos no mais próximo a boca. – Tudo bem! – Aurora não continuou de imediato. Ela não se lembrava de onde tinha parado.
- Você esqueceu em que parte paramos… – Deduziu Afonso.
- Esqueci. – Admitiu Aurora. – Em que parte paramos?
- Nos neurotransmissores liberados pelos neurônios pré- e pós-ganglionares. – Respondeu Afonso. Uma expressão de reconhecimento passou pelo rosto de Aurora, fazendo-a sorrir.
- Preparado? – Afonso assentiu. – O que acontece é o seguinte: tanto na divisão simpática quanto na parassimpática, o neurônio pré-ganglionar libera acetilcolina, e o neurônio pós-ganglionar possui receptores nicotínicos que se ligam a ela. Essa ligação permite a entrada de Na+ e a rápida despolarização do neurônio pós-ganglionar. – Aurora procurou alguma expressão no rosto de Afonso que indicasse que, para ele, aquilo era novo, mas não encontrou.
- E quais os efeitos dessa ligação?
- A ativação dos receptores nicotínicos são sempre estimulatórios.
- Existem outros tipos de receptores?
- Sim. Os muscarínicos. Falaremos deles em breve… – Aurora deixou Afonso absorver as informações compartilhadas por ela e esperou por algum comentário.
- Resumindo: os neurônios pré-ganglionares, nas divisões simpáticas e parassimpáticas, liberam acetilcolina, e a acetilcolina se liga a receptores nicotínicos. E o efeito é sempre estimulatório.
- Certíssimo! Você é um ótimo aluno! – Elogiou Aurora, mesmo sabendo que aquelas informações não eram novidade para ele. Afonso sorriu.
- E você, uma ótima professora. – Era a vez de Aurora sorrir, apesar de achar que ele estava apenas sendo educado (ele não estava). Os dois sustentaram o olhar por mais um tempo antes de Afonso voltar a falar. Depois, eles voltaram a encarar o que tinham diante de si. – Neurônios pós-ganglionares, então?! – Perguntou Afonso.
- Neurônio pós-ganglionares, então. – Confirmou Aurora. Ela precisou de uns segundinhos a mais para organizar os próprios pensamentos antes de continuar. – Nos neurônios pós-ganglionares, existe uma diferença entre os sistemas simpático e parassimpático. No sistema parassimpático, há liberação de acetilcolina, mas o órgão efetor possui receptores muscarínicos, e a ligação da acetilcolina pode ser estimulatória ou inibitória, dependendo do subtipo do receptor muscarínico ativado. No sistema simpático, por outro lado, há, tipicamente, liberação de noradrenalina, que se liga aos receptores adrenérgicos no órgão efetor. Como existem diferentes receptores adrenérgicos, a resposta dependerá do receptor adrenérgico ativado.
- Todos os órgãos efetores recebem inervação desses dois componentes do sistema nervoso autônomo? – Pelo tom de voz, era perceptível que aquele detalhe Afonso não conhecia. Aurora sorriu por ter a oportunidade de expandir o universo de conhecimento do Vizinho Bisbilhoteiro.
- Nem todos! Alguns recebem apenas inervação simpática, como as glândulas adrenais, por exemplo. A medula adrenal, que compreende o núcleo dessas glândulas, é, na verdade, um gânglio simpático altamente modificado. – Explicou Aurora. Afonso voltou a encará-la. – Deixe-me acrescentar mais uma coisa… Ou algumas coisas: os neurônios simpáticos pré-ganglionares terminam na medula adrenal, mas os neurônios pós-ganglionares não inervam um órgão efetor. Ao invés disso, eles são modificados em células neurossecretoras chamadas células cromafins, que liberam adrenalina e noradrenalina diretamente na circulação, produzindo efeitos excitatórios generalizados. – Concluiu Aurora.
- Então, a liberação dessas catecolaminas pelas células cromafins também está envolvida na resposta a situações de estresse... – Aurora olhou para Afonso sorrindo. Mais uma vez, aquele detalhe parecia novidade para ele. – O que foi? – Perguntou ele.
- Você conhece a palavra catecolamina? – Provocou Aurora mais uma vez. Afonso revirou os olhos e sorriu.
- Não me subestime, Senhorita. Posso surpreendê-la.
- Não subestimo. – Afonso sorriu. – E sim, não são apenas os nervos simpáticos que preparam o corpo para a reação de luta ou fuga através da liberação de catecolaminas. O eixo simpático-adrenal-medular também contribui. Em português, costuma ser chamado de eixo SAM.
- Esse eixo parece ser uma sobreposição parcial do sistema simpático com o eixo HPA. – Comentou Afonso.
- Parece mesmo. – Concordou Aurora.
- Em resumo, o que você descobriu de interessante sobre a resposta ao estresse em vertebrados? – Perguntou Afonso.
- Precisa ser “em resumo” mesmo. – Afonso olhou para o relógio de pulso para verificar a hora, eram onze e quarenta e cinco da manhã, e disse voltando a olhá-la nos olhos: – Bem, nós temos o que resta da manhã, e toda a tarde e toda a noite pela frente. Então, eu diria que não precisaria ser um resumo enxuto.
- Que redundante! – Comentou Aurora em tom de brincadeira.
- Você entendeu o que eu quis dizer.
- Seria um resumo expandido, então?! Que nem aqueles que os pesquisadores submetem para avaliação do comitê de um congresso científico?! – Afonso franziu o cenho. Ele não sabia do que ela estava falando – Você sabe que painho é pesquisador. – Uma expressão de reconhecimento apareceu no rosto dele. – Sempre ouço painho comentar com mainha sobre seus estudantes terem submetido resumos expandidos para congressos. Parece que existem diferentes tamanhos. Na maioria das vezes, o expandido é para apresentações orais e o “padrão”, para apresentações em pôsteres. – Afonso balançou a cabeça, entendendo o que ela queria dizer.
- Então, você tem tempo suficiente para um resumo expandido; talvez até para dois ou três capítulos inteiros. – Decretou Afonso. Aurora comemorou. – O que você achou de interessante sobre a resposta ao estresse em vertebrados? – Afonso repetiu a mesma pergunta feita minutos antes.
- Muita coisa! – Confessou Aurora, entusiasmada. Afonso sorriu ao vê-la tão feliz com a possibilidade de compartilhar os conhecimentos adquiridos naquela manhã de verão e antes dela. Os dois voltaram a olhar para frente.
- Desenvolva… – Pediu Afonso, imitando novamente o professor de Biologia. Aurora riu. A imitação era tão precisa que seria impossível não fazê-la rir.
- Não estamos respeitando a promessa de não interrupção… – Refletiu Aurora.
- Estamos sim, porque a promessa foi de tentar não interrompê-la e eu estou tentando com todas as minhas forças… Mas você sabe o que dizem os grandes sábios “as conversas também são feitas de silêncios e interrupções”. – Argumentou Afonso. Aurora riu.
- Tenho certeza de que essa citação não inclui a parte de “e interrupções”.
- A versão mais nova tem. – Garantiu Afonso. – Então, onde estávamos mesmo? – Ele resgatou as palavras de Aurora em poucos segundos. – Você disse que tem muita coisa interessante para compartilhar.
- Tenho mesmo, mas, antes, preciso perguntar uma coisa…
- O quê?
- O que acontece quando o sistema nervoso simpático e, consequentemente, o SAM são ativados? Não precisa listar todos os efeitos, apenas os mais comuns. – Pediu Aurora. Afonso fez uma careta. – Eu sei que o seu conhecimento sobre fisiologia não é tão raso quanto você faz parecer. Não pense que me engana com isso de não saber sobre as mais variadas coisas do mundo. Eu sei que você também ama aprender. – Em um primeiro momento, Afonso ficou constrangido por Aurora de fato conhecê-lo, mas, ao mesmo tempo, gostou de saber que Aurora prestava atenção nele, porque Afonso também sempre estava atento aos pequenos pedacinhos de si que Aurora deixava escapar quando estavam juntos. Ele tentou não sorrir, mas não conseguiu.
- Tudo bem, admito: eu sei uma coisa ou outra de fisiologia. – Aurora olhou para Afonso e o encarou por alguns instantes com os olhos semicerrados. Ele percebeu e a encarou de volta. Ela queria muito entender por que o Vizinho Bisbilhoteiro sempre tentava passar a impressão de que não se interessava por nada. Aurora, no entanto, sabia, e queria muito que ele admitisse de verdade, que o conhecimento de Afonso para um estudante de ensino médio era vasto.
- Então… O que acontece quando o sistema nervoso simpático e, consequentemente, o SAM são ativados? – Ela repetiu a pergunta feita minutos atrás.
- Quando o sistema simpático e, consequentemente, o SAM são ativados há a contração das células musculares lisas e cardíacas, resultando em vasoconstrição, aumento da pressão arterial, frequência cardíaca e débito cardíaco…
- E débito cardíaco seria…
- Eu já entendi que você descobriu que eu sei mais do que gosto de admitir. Não precisa me fazer provar o seu ponto…
- Talvez eu só não saiba o que é débito cardíaco. – Afonso sabia escolher suas batalhas (na maioria das vezes), então decidiu se render:
- O débito cardíaco é a quantidade de sangue bombeada pelo coração por minuto… Satisfeita?
- Muitíssimo!
- Então, posso continuar? – Aurora assentiu. – A ativação do sistema simpático e, consequentemente, do SAM também aumenta o fluxo sanguíneo para os músculos esqueléticos, estimulando a retenção de sódio, elevando os níveis de glicose por meio da glicogenólise e gliconeogênese e estimulando a lipólise, o consumo de oxigênio e a termogênese. Antes que você me pergunte: glicogenólise é a quebra do glicogênio hepático ou muscular em glicose; gliconeogênese é a produção de glicose a partir de precursores não-carboidratos; e lipólise é o processo metabólico de quebra dos triglicerídeos armazenados nos adipócitos em ácidos graxos livres e glicerol.
- Eu não ia perguntar sobre nenhuma destas definições. Na verdade, eu só ia perguntar a definição de termogênese.
- Porque você certamente não sabe…
- Eu certamente não sei… – Os dois claramente estavam se divertindo.
- Termogênese é o processo metabólico através do qual o corpo produz calor. Satisfeita?
- E o que mais acontece quando o sistema simpático é ativado?
- Você disse que não precisava listar todos os efeitos…
- Só mais alguns. – Pediu Aurora.
- A ativação do sistema nervoso simpático resulta em redução da motilidade intestinal, vasoconstrição cutânea e dilatação bronquiolar… – Afonso parou por alguns instantes, tentando decidir se deveria acrescentar os efeitos comportamentais. No final, decidiu que valia à pena. – Do ponto de vista comportamental, a ativação provoca aumento da excitação, estado de alerta, vigilância, cognição, atenção focada e analgesia. Essas alterações em conjunto preparam o corpo para responder às demandas ambientais circundantes. Satisfeita?
- Muitíssimo! Acho que agora posso enfim falar os segredos que descobri.
- Finalmente!
- Sabia que você estava curioso! – Mais uma vez, Afonso ficou vermelho.
- Então, por onde começaremos?
- Pelas catecolaminas! – Respondeu Aurora. Ao ouvir aquela palavra, Afonso sorriu. Ele lembrou o momento em que tinha utilizado catecolaminas para se referir a adrenalina e a noradrenalina.
- O que têm as catecolaminas?
- Na maioria dos vertebrados, a noradrenalina é o principal mediador da divisão simpática do sistema nervoso autônomo, mas… – Aurora estendeu o “mas” para fazer suspense.
- Mas…?
- Nos anfíbios, a noradrenalina é convertida em adrenalina e então liberada como principal neurotransmissor.
- E existe alguma explicação para isso? Alguma vantagem adaptativa?
- Se existe, eu não consegui encontrá-la. Nada na literatura explica esse fato curioso.
- Será que pode ter alguma relação com a presença da enzima que converte a noradrenalina em adrenalina nos nervos simpáticos? A PNMT?
- Procurei artigos sobre a PNMT, mas não encontrei nada que sugira que ela não está presente nos nervos simpáticos dos demais vertebrados. Na verdade, os artigos mostram que ela está, sim, presente neles.
- Será que seu pai não poderia perguntar a algum colega pesquisador?
- Não acho que o departamento de História tenha interesse em estudar anfíbios.
- Se eu fosse você, eu não teria tanta certeza. – Aurora riu.
- Tudo bem! Mais tarde, eu pergunto se algum colega trabalha com anfíbios.
- Você sabe que essa é a decisão certa a ser tomada.
- Você tem toda razão. – Os dois riram.
- E o que ainda há para se dizer sobre as catecolaminas? – Perguntou Afonso, curioso.
- Vejamos… – Disse Aurora. – Vários insultos ambientais influenciam a liberação de catecolaminas na corrente sanguínea. Por exemplo, alguns fatores considerados estressores em peixes não aumentam a sua liberação como esperado.
- Como por exemplo…
- Por exemplo… Os peixes não liberam catecolaminas em resposta à hipóxia ambiental leve ou moderada; em vez disso, são necessárias condições hipóxicas graves, exposição ao ar ou hipóxia moderada prolongada para provocar um aumento significativo nos níveis de catecolaminas circulantes. – Afonso pareceu surpreso com aquelas informações. Para ele, o aumento de catecolaminas nessas condições seria certo. Não haveria dúvidas. – Pois é! Eu também fiquei surpresa ao ler esses dados por um instante.
- Só por um instante? Não mais que isso?
- Só por um instante.
- Por quê?
- Já ouviu falar em hormese? – Perguntou Aurora. Afonso negou com a cabeça. – Hormese refere-se às respostas adaptativas dos sistemas biológicos a desafios ambientais moderados ou autoimpostos, por meio dos quais o sistema melhora sua funcionalidade e/ou tolerância a desafios mais severos. Em outras palavras, hormese nos ensina que um pouco de estresse é bom para fortalecer o indivíduo. Não sei se seria aplicável a hipóxia de leve à moderada, mas não me parece impossível. – Afonso decidiu que estudaria mais sobre esse conceito tão curioso. Era, no mínimo, interessante que o estresse pudesse ser benéfico em algumas ocasiões. – Quer saber mais sobre os peixes?
- SIM, com letras garrafais. – Aurora riu.
- Durante a exposição à hipóxia aguda e a outros fatores de estresse agudos, como anemia ou anestesia; a hipoxemia, que é uma redução específica da concentração de O₂ no sangue, parece ser o estímulo imediato que causa a liberação de catecolaminas.
- Hipoxemia… Primeira vez que ouço essa palavra.
- Calma, que ainda não acabou! – Anunciou Aurora. – Enquanto o exercício aeróbico sustentado não está associado a alterações nas concentrações de catecolaminas circulantes, a natação anaeróbica em rajadas em um respirômetro ou o exercício exaustivo provocam um aumento das catecolaminas plasmáticas.
- Não é tão surpreendente quanto a hipóxia de leve a moderada não provocar aumento na liberação de catecolaminas. – Aurora sorriu ao ouvir Afonso dizer aquelas palavras. Em seguida, ela voltou a falar:
- Em resumo, as evidências sugerem que a liberação significativa de catecolaminas ocorre apenas em condições de estresse grave. Durante perturbações mais leves, que às vezes são consideradas estressantes para os peixes, os níveis plasmáticos de catecolaminas podem permanecer essencialmente inalterados.
- E como é essa questão nos anfíbios? Existem estudos sobre?
- Sim, existem, mas, infelizmente, são poucos. Por exemplo, a hipóxia provoca um aumento significativo das catecolaminas plasmáticas, presumivelmente para modular a função cardíaca e a resistência vascular. A atividade forçada, por sua vez, causa um aumento significativo nos níveis tanto da adrenalina quanto da noradrenalina circulantes, ou apenas da adrenalina. Outros estressores que levam à liberação das catecolaminas são a desidratação e a hemorragia. Existem também os desreguladores endócrinos. – Revelou Aurora. Afonso esperou. – Os desreguladores endócrinos são um grande grupo de substâncias amplamente disseminadas no meio ambiente e nas cadeias alimentares. Eles são capazes de interferir no sistema endócrino e, por isso, podem afetar a liberação de catecolaminas. Apesar do papel fundamental desempenhado pela glândula adrenal na regulação fisiológica, poucos estudos abordaram as consequências dos desreguladores endócrinos sobre a função adrenal.
- O que esses poucos estudos encontraram?
- O livro descreve apenas o resultado de um deles. Nele, os autores revelaram que o fungicida tiofanato de metila, um desregulador endócrino amplamente utilizado para controlar muitas doenças fúngicas em culturas de soja, feijão, café e tomate, embora em doses muito baixas, aumenta significativamente a liberação de noradrenalina e adrenalina, diminuindo assim o número de grânulos de catecolaminas nas células cromafínicas no urodelo T. carnifex. Essa espécie é conhecida popularmente como tritão-de-crista italiano.
- Urodelo? Os anfíbios caudados? – Aurora assentiu. – Tem alguma imagem dele no livro? – Aurora procurou e encontrou uma imagem em alta definição do T. carnifex. – Ele parece perigoso com essa crista amarela.
- Cores fortes em animais sempre nos assustam, não é? – Comentou Aurora, voltando a olhar para Afonso.
- Sempre! – Confirmou Afonso, sustentando o olhar dela.
- O estudo também mostra que, apesar da diminuição no número de grânulos cromafínicos de catecolaminas, o número de grânulos intermediários, ou seja, os grânulos em processo de enchimento, aumentou significativamente. E esse aumento, juntamente com o complexo de Golgi bem desenvolvido, organela envolvida na síntese de catecolaminas, sugere atividade biossintética aumentada nas células cromafínicas.
- Então, ao mesmo tempo em que há maior liberação de catecolaminas, há aumento na síntese de catecolaminas. – Afonso absorveu às informações compartilhadas por Aurora e um detalhe chamou sua atenção. Ele perguntou se seu raciocínio estaria na direção correta. Seu silêncio se prolongou por um instante a mais do que o esperado.
- No que você está pensando? – Perguntou Aurora, curiosa, franzindo o cenho.
- Sabemos que existe uma redução no número de grânulos cromafínicos e um consequente aumento nos níveis de catecolaminas. Também sabemos que existe um aumento no número de grânulos intermediários. – Aurora esperou Afonso voltar a falar. Ele parecia organizar os próprios pensamentos para ser o mais claro possível. – Se o número de grânulos de catecolaminas diminui, seria possível inferir que o animal estaria temporariamente inapto a responder de maneira adequada ao estresse? – Aurora ponderou as palavras de Afonso.
- Você acha que os grânulos intermediários são “imaturos” e que a catecolamina presente neles não seria liberada na presença de um insulto ambiental? – Afonso assentiu. – E se não há uma resposta satisfatória ao estresse, há uma chance menor de o animal sobreviver e um risco maior de a espécie se tornar ameaçada. – Completou Aurora. – Faz muito sentido! – Aurora pegou o caderno que estava debaixo do livro e abriu na última página usada de trás para frente (ela era canhota). Uma caneta azul marcava aquela folha parcialmente em branco. Aurora anotou a hipótese de Afonso e colocou um asterisco ao lado das palavras. Ela procuraria em outro momento se a literatura científica dizia alguma coisa a respeito. Se não dissesse, ela saberia que essa questão deveria ser estudada no futuro. Talvez, até, já estivesse sendo investigada. Afonso observou Aurora escrever em silêncio. Queria saber o que ela registrava em seu caderno, mas decidiu não ser muito enxerido. – Assim que puder, irei acessar as bases de dados científicas para descobrir se sua hipótese está ou não correta. – Disse ela, enquanto escrevia. No final das contas, Afonso não precisou ser enxerido para saber o que Aurora escrevia.
- Acho que você deveria acrescentar um lembrete! – Comentou Afonso, olhando para Aurora. Ela deixou a página de lado e o encarou.
- Que lembrete?
- “Pedir ao meu pai para descobrir com algum colega o porquê de os anfíbios utilizarem adrenalina como principal neurotransmissor dos nervos simpáticos, e não noradrenalina”. – Aurora riu, mas adicionou o lembrete em uma linha em branco mais abaixo.
- Hora dos répteis? – Sugeriu Afonso. Aurora assentiu. – O que você encontrou? – Agora, os dois estavam sentados de lado no balanço, de frente um para o outro.
- Como esperado, diferentes fatores de estresse produzem diferentes padrões de liberação de catecolaminas. Por exemplo, a desidratação e o tratamento com formalina, uma solução aquosa de formaldeído, elevam as concentrações de noradrenalina e adrenalina em tartarugas de casca mole.
- Você acha que a exposição à formalina é significativa no ambiente aquático?
- Acho que, como o problema de descarte incorreto de águas residuais industriais, que contêm poluentes perigosos, ainda não foi resolvido, então faz sentido haver uma quantidade tóxica de formaldeído nos oceanos, rios e lagos. Li uma vez que o formaldeído é um dos compostos orgânicos refratários mais tóxicos, e que ele é amplamente utilizado na indústria química e em laboratórios de anatomia. Portanto, deve haver despejo de formaldeído nos arredores dessas indústrias ou em locais próximos. – Afonso ponderou as palavras de Aurora. Fazia sentido o que ela dizia. Dia sim, dia também, os noticiários informam sobre o descarte incorreto de substâncias tóxicas, principalmente quando afeta a saúde humana de populações próximas.
- Você provavelmente está certa. – Os dois passaram uns minutos em silêncio, imersos em pensamentos desagradáveis sobre a destruição do meio ambiente. Para espantá-los, Aurora voltou a compartilhar dados de outros estudos.
- Um artigo que avaliou jacarés jovens revelou que o estresse por imobilização causa uma diminuição nos níveis plasmáticos de adrenalina e noradrenalina depois de 24 horas, e um pequeno aumento nos níveis de noradrenalina depois de 48 horas. Os autores sugeriram que os níveis de adrenalina já estavam elevados na primeira medição e argumentaram que outros répteis apresentam níveis muito menores de adrenalina em condições basais.
- Deve ser difícil medir o nível basal em qualquer espécie animal sem estressá-lo e, consequentemente, ativar o sistema simpático.
- Os autores discutem justamente isso ao compararem os níveis basais dos jacarés com os níveis de duas espécies de lagarto e uma espécie de tartaruga.
- Quais outros fatores influenciam os níveis plasmáticos de catecolaminas em répteis?
- Anóxia, interações sociais e poluição ambiental. Na tartaruga Chrysemys picta, os níveis aumentam durante a anóxia e caem durante a recuperação. No lagarto Anolis carolinensis, após episódios agressivos, os vencedores apresentaram níveis muito mais elevados de adrenalina e noradrenalina do que os perdedores.
- Isso é a prova de que ninguém ganha de verdade em um confronto físico violento. – Aurora não respondeu. Pensou em todas as notícias transmitidas pelos diversos meios de comunicação sobre violência dos últimos dias. Parecia que a violência aumentava, não o contrário. Afonso estava imerso em pensamentos terríveis semelhantes.
- O que existe na literatura sobre poluição ambiental? – Perguntou Afonso depois de o silêncio se prolongar por um tempo consideravelmente longo.
- Primeiro, a literatura científica revela que os répteis são muito sensíveis à poluição ambiental e, por isso, são considerados excelentes biomonitores.
- Imagino que o fato de os répteis ocuparem uma ampla variedade habitats contribua para isso.
- E o fato de os répteis biocumularem e biomagnificarem poluentes a níveis iguais ou superiores aos observados em aves e mamíferos. – Acrescentou Aurora. – O fungicida tiofanato de metila induz, no lagarto P. sicula, um forte aumento dependente de tempo nos níveis plasmáticos de adrenalina e nas células produtoras de adrenalina e uma tendência a diminuição concomitante nos níveis de noradrenalina. Como o tiofanato de metila também aumenta os níveis plasmáticos de corticosterona, essas alterações podem ser explicadas por uma ação direta do tiofanato de metila sobre o tecido cromafínico e/ou por um efeito da corticosterona sobre a atividade da PNMT.
- Tiofanato de metila? O mesmo que afeta os anfíbios?
- Ele mesmo.
- A resposta desse lagarto ao Tiofanato de metila é ligeiramente diferente da resposta observada no urodelo. – Aurora buscou na sua memória o que o estudo dizia.
- Tem razão. No urodelo, ambas as catecolaminas diminuíram…
- O que pode ser explicado, imagino eu, por diversos fatores, inclusive pelos protocolos experimentais diferentes.
- Infelizmente, o livro não detalha os protocolos experimentais desses dois estudos.
- Se ele trouxesse, seria preciso mais de um livro para compilar tanta informação.
- Você achou o livro grande? – Perguntou Aurora, analisando o livro que tinha em mãos.
- Enorme. Quantas páginas ele tem? Mais de 300, certamente. – Afonso observou o livro, tentando fazer uma estimativa.
- Duzentas e cinquenta e uma páginas.
- Como é um livro científico, você precisará de mais do que um dia para terminá-lo.
- Preciso confessar uma coisa. – Aquelas palavras fizeram Afonso voltar a encará-la. Ela ainda mantinha os olhos no livro, como se estivesse prestes a revelar algo constrangedor.
- O quê?
- Eu venho lendo este livro há algum tempo.
- Isso não é justo com os demais temas. Eles só ganham um dia de reconhecimento. – Aurora riu.
- Só porque eu não repeti um tema nas últimas duas semanas não quer dizer que eu nunca volte a ele.
- Então, acho que virei sempre agora, já que obviamente duas semanas não são suficientes para entender seu padrão de escolha. – Aurora encarou Afonso com os olhos semicerrados, tentando entender o que ele estava dizendo nas entrelinhas.
- Tudo bem! Eu aceito sua companhia, mas só se trouxer um doce toda sexta-feira.
- Que tipo de doce?
- Bolo de rolo.
- Trarei, mas só se você trouxer um salgado. – Afonso fez uma contraproposta.
- Que tipo de salgado?
- Salgadinho de queijo. – Respondeu Afonso sem titubear. – Temos um trato? – Afonso estendeu a mão para Aurora e esperou. Ela hesitou por um instante antes de aceitar o acordo. Os dois ainda se olhavam nos olhos. – Aves agora?
- Aves agora. – Aurora desviou o olhar para o livro e procurou o capítulo de aves. Ela não precisava ler novamente para recordar o que tinha escrito naquelas páginas, mas estava, por alguma razão, com o coração acelerado e as mãos geladas. – Um estudo revelou que o estresse por imobilização em ambiente frio e úmido causa uma diminuição na quantidade de ambas as catecolaminas nas glândulas adrenais. Segundo os autores, esses resultados sugerem que houve um aumento na liberação dessas catecolaminas na circulação em resposta ao insulto. Inclusive, outros estudos revelaram resultados similares para o frio e a imobilização, quando analisados isoladamente. Também já foram avaliados os efeitos da superlotação, do manuseio, da exposição à novidade e da restrição física ou da tentativa de fuga sobre os níveis plasmáticos de catecolaminas. Todos esses fatores levam a um aumento dessas proteínas. Por sua vez, o estresse osmótico estimula a função adrenal, reduzindo a área ocupada pelas manchas medulares e aumentando a relação córtico-medular. Em outras palavras, essa relação córtico-medular refere-se a área ocupada pelos cordões corticais por unidade de área ocupada pelo tecido medular.
- Para ficar ainda mais simples: a área da medula da glândula adrenal diminui e isso altera a proporção entre ela e a área do córtex dessa mesma glândula.
- BINGO! Você seria um ótimo professor! – Afonso sorriu.
- Quem sabe não está nos meus planos? – Aurora ficou surpresa com aquela revelação. Não parecia ser brincadeira da parte dele.
- Interessa-me muito saber os seus planos. – Aurora só percebeu que queria muito conhecê-lo um pouco mais a cada dia quando falou aquelas palavras em voz alta. Afonso gostou do que ouviu.
- Você já sabe um deles. – Falou Afonso, confirmando o sonho de ser professor. Aurora sorriu. – Mas não conta para ninguém. Ainda é segredo.
- Pode deixar. Onde estávamos?
- Nos efeitos do estresse osmótico…
- Bem lembrado. – Aurora demorou dois segundos para decidir o que falaria em seguida. – Além das alterações anatômicas provocadas pelo estresse osmótico, existem respostas fisiológicas altamente variáveis entre as aves. Por exemplo, no pombo, a adrenalina é o hormônio mobilizado na presença desse estressor; enquanto no pardal doméstico, tanto a noradrenalina quanto a adrenalina são secretadas.
- E o que os autores dizem sobre isso?
- São estudos diferentes; então, não há uma discussão sobre essas respostas ligeiramente distintas.
- Talvez, no pombo, a enzima PNMT esteja presente em grande quantidade, e no pardal, não.
- Mais uma informação para pesquisarmos. – Afonso sorriu. Era bom ser incluído nos planos de Aurora, mesmo que fossem planos simples como procurar informação científica sobre temas aleatórios. Era muito bom, na verdade. Afonso torcia para que houvesse um “juntos” depois de “pesquisarmos”. Aurora registrou em seu caderno a frase: “procurar sobre a enzima PNMT em aves (principalmente em pardais e pombos)”.
- O tiofanato de metila também afeta as aves? – Aurora riu. Ela entendia a pergunta. Aquele fungicida era uma constante quando estressores ambientais estavam em pauta.
- Dessa vez, o desregulador endócrino abordado pelos autores é o cádmio.
- Um metal de transição altamente tóxico. – Comentou Afonso.
- Os autores observaram uma redução na proporção de células granulares basolíficas no tecido cromafínico, local de produção de catecolaminas nas glândulas adrenais. Essa alteração sugere que uma mudança nas proporções de células granulares marrons e basolíficas que compõem o tecido cromafínico provavelmente alteraria a capacidade das aves de sintetizar adrenalina e noradrenalina, possivelmente alterando a função dos sistemas influenciados por esses hormônios.
- O que mais o livro traz sobre as aves?
- Você sabe que a frequência cardíaca é um bom indicador, embora imperfeito, da liberação de catecolaminas, né? – Afonso assentiu. – Especialmente quando combinada com análises da variabilidade da frequência cardíaca. Por exemplo, os agonistas e antagonistas dos receptores de catecolaminas podem aumentar e diminuir a frequência cardíaca, respectivamente.
- Mas existem atividades, como o exercício físico, que também podem alterar a frequência cardíaca… – Comentou Afonso.
- Muito bem pontuado. – Elogiou Aurora. Afonso sorriu. – Você sabe também que a resposta de luta e fuga reflete a gravidade do fator estressante? Em outras palavras, a resposta de luta ou fuga não é uma resposta de tudo ou nada.
- Acho que nunca parei para pensar a respeito disso, mas faz sentido.
- Eu também não tinha parado para pensar a respeito até ler sobre. – Confessou Aurora. – Enfim… Ao utilizar as variações na frequência cardíaca, como indicador da liberação de catecolaminas, em estorninhos-comuns, mantidos em cativeiro, estressores mais intensos provocaram aumentos mais acentuados na frequência cardíaca, que permaneceram elevados por períodos mais longos.
- Estorninhos-comuns? – Aurora assentiu.
- O nome científico da espécie é Sturnus vulgaris. – Revelou Aurora. – Deixe-me procurar uma imagem deles. – Em questão de segundos, Aurora encontrou a página. Afonso observou durante um instante, tentando lembrar se já havia visto aquele passarinho alguma vez. Ele deixou a página de lado e voltou a olhar para Aurora, que retribuiu o olhar.
- Acho que não os conheço. – Concluiu Afonso. – Quais outros fatores ambientais influenciam a frequência cardíaca?
- A frequência cardíaca pode ser bem diferente ao longo das estações do ano. Por exemplo, os estorninhos em cativeiro, submetidos a um fotoperíodo curto, uma maneira conhecida de mimetizar o inverno, apresentaram uma resposta atenuada da frequência cardíaca ao mesmo fator de estresse, quando comparados a estorninhos submetidos a um fotoperíodo longo, uma maneira de mimetizar verão.
- Então quer dizer que a frequência cardíaca responderá a um mesmo estímulo em intensidades diferentes de acordo com a estação do ano? – Aurora assentiu. – Se eu disser que meu coração está acelerado agora, em pleno verão, por algum motivo desconhecido, esse mesmo motivo aumentará minha frequência cardíaca durante o inverno, mas em menor intensidade?
- Seu coração está acelerado agora?
- Está.
- Por um motivo desconhecido?
- Não para mim.
- Não consigo identificar um estressor ao redor… – Comentou Aurora, mexendo a cabeça de um lado para o outro.
- Eu não disse que era um estressor… – Aurora parou de se mexer. Um segundo depois, ela olhou nos olhos de Afonso.
- O que você quer dizer com isso?
- Você não sabe? – Um segundo, dois segundos…
CONTINUA…

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